"Passa o relógio aí, mermão!"
Depois, veio o quase-assalto, sob a forma do:
"Eu poderia estar roubando..."
Com o surgimento do:
"Desculpe interromper a tranquilidade da sua viagem..."
vimos que a chegada de um certo treinamento corporativo dos pedintes de ônibus.
Coisa de RH.
Depois, entramos no capitalismo primário, oferecendo serviço, algo últil ao consumidor:
"A caneta Bic custa 1,80 na papelaria. Na minha mão, você leva duas por 1 real. Vermelha, preta ou azul."
Mais tarde, foi o aumento da oferta - vendendo prazer, e deixando os passageiros confusos com tanta opção.
"Chegou a alegria da sua viagem. Pelo mesmo preço, você pode levar dois saquinhos de amendoim, com casca, sem casca, japones, ou cinco balas sete bello, sabor maçã verde ou morango, ou um maxgoiabinha, ou dois bom-bons serenata de amor, ou três pastilhas garoto de hortelã, ou..."
Nos últimos meses, a nova onda:
O reality show dos pedintes.
Sempre antenados com o que acontece, eles agora dão depoimentos trágicos com comprovante de residência e CPF.
Já que o importante é ser verdade.
"Eu estou aqui, um pai de família,
passando pela vergonha de pedir ajuda,
porque fui demitido da companhia tal,
e moro no bairro tal,
rua tal, numero tal, como vocês podem ver aqui..."
Tome de tirar do bolso, notas, faturas, carteira de trabalho,
de identidade.
E nada de mostrar ferida purulenta, que isso remete à era pré-assalto!
O depoimento tem que ter detalhes e pelo menos cinco minutos de duração: contar a história, falar dos próprios sentimentos, criar imagens na cabeça do expectador, emocionar.
Hoje, na volta do trabalho, peguei a terceira história trágica da semana e confesso que mudei de canal.
Afinal, os pedintes-reality, assim como os BBBs, tem que ser bem escolhidos pela produção.
O de segunda-feira, por exemplo, não tinha dentes, quase chorou e disse que tinha uma filha doente na cama. Quando falava, o rosto ficava vermelho e as veias saltadas no pescoço.
Parecia realmente sem saída, ganhou 1 real.
O de hoje, dizia frases feitas como:
"Nem que eu pegue 10 ônibus, conseguirei os quinze reais para minha fisioterapia"
Sei lá.
Achei muito personagem. Muito ligado ao dinheiro, fazendo contas.
Conclui que ele devia estar jogando e, apesar de 5 centavos na mão, fingi que estava dormindo quando ele passou por mim.
Eliminado.