25.10.07

Estudo Antropológico: Peripécias do Vôo 873

Acompanhem atentamente o desenrolar dos fatos do último domingo, a bordo do vôo 873 Panamá-Rio.

Faz a gente pensar sobre as relações humanas:

Decolagem - 11h40. Os cerca de 200 passageiros ainda agem formalmente: Dá licença, 18A? Sorry, acho que o senhor está na minha poltrona, oh, excuse me, obrigado por escolherem Copa airlines, em breve iniciaremos o nosso serviço de bordo. São todos desconhecidos, a maioria nem fala a mesma língua.



Viagem - 7 horas de duração + 3 de fuso
Estamos confortavelmente protegidos em nossas bolhas. Os casais e pequenos grupos continuam fazendo a linha "não precisamos de ninguém", conversam baixinho entre si, lêem seus livrinhos, colocam o fone para mergulhar no filme exibido ou babam dormindo na poltrona. Nesse momento, o grupo Passageiros do Vôo 873 ainda não existe como grupo. Porém, um ou outro solitário, que não trouxe livro, que não está com sono ou que não se interessa pelo Dvd do Harry Potter e a Ordem de Fênix começa a puxar papo com quem está ao lado.
Na minha frente, um fazendeiro de Friburgo assusta um peruano: "No Rio, cuidado com as metralhadoras!". O tijucano residente em Miami (que depois me emprestaria o celular, motivo pelo qual ganhou minha graditão eterna), coloca panos quentes: "Também não é assim!"
21h48 - Ilusão de Pouso
O comandante anuncia: tripulação, prepapar para pouso no Rio de Janeiro. Todos Felizes. Eu bato palminhas, vou ver minha filha depois de 17 dias. Que fantástica a vida, não é mesmo?

21h55 - Algo está errado
Os aeroportos do Rio e de São Paulo estão fechados por mau tempo. Vamos para BH! Silêncio mortal. Ninguém fala, mas todos pensam a mesma coisa: " O avião está com defeito e vamos fazer pouso de emergência". Ou nos chocar com uma montanha em 5 segundos.... 4.. 3.. 2...
Toda vez que a aeromoça cruza o corredor com seu andar apressadinho, vc tenta ler na expressão do seu rosto algum sinal de tragédia. Enfim, passamos a nos sentir um grupo: vamos morrer juntos. Não exagera, Angélica! É só o mau tempo! Vamos acreditar no capitão. Seguro a mão do Pedro um pouco mais forte.

22h - Belo Horizonte - 3 horas de espera sem informação
Já em terra, o medo se dissipa e, agora, o grupo, quer saber o que aconteceu. Sim, porque todos ligam para os parentes e descobrem que o céu está estrelado, então, qual o motivo?? O capitão diz que é o tráfego, o caos no sistema de aviação brasileira, mas a metade já não acredita em suas palavras vãs. Aqueles que você mal cumprimentou no início agora são aliados, fazem grandes afirmações, polemizam: "O problema do brasileiro é que aceita tudo de cabeça baixa! Se fosse na Europa, a gente processava!". Há debates acalorados: "A culpa é da companhia estrangeira ou da centralização do controle de tráfego áereo?" É instigante ver como tudo se transformou. E, de repente, me sinto orgulhosa dos meus companheiros. Somos uma família.

00h - O stress e avacalhação
As septuágenarias lideradas pelo professor Eduardo e sua esposa Leila estão se portando superbem.
O menino de 1 ano, Arturo, também é um gentleman.
Tirando eles, a maioria descamba para os dois comportamentos básicos do desespero:
1 - A briga
2 - O relaxa e goza
Do lado dos estressados, a fumante, alegando abstinência de nicotina, ameaçava fumar no banheiro o que faria o avião explodir. Só sossegou quando o comissário disse que chamaria a polícia federal.
- o vulgo "Cowboy" esculhamba a pobre aeromoça panamenha, com um terço de seu tamanho. "Eu meto a boca mesmo! São uns canalhas!" bradava.
Do lado dos que resolveram fazer festa,
- o bebum da 1a. Classe, depois de acabar com o estoque de whisky, fazia piadinhas sobre o problema ser a gasolina e o capitão não ter o cartão petrobrás. Só que o único de tanque cheio por ali era ele.
- já os bailarinhos da companhia de dança que vinha de uma apresentação na América Central roubaram os pacotinhos de pretzel do avião e atiravam para os passageiros, dizendo: "quem quer bacalhau?" Ganharam o prêmio originalidade da noite.

2h da manhã - Desfecho
Meu alívio também foi minha frustração. Finalmente, o que parecia distante aconteceu - o avião decolou e chegamos em casa. Com pressa, todos pegaram suas bagagens e saíram sem olhar para trás. Ninguém se despediu. Depois de tanta união pela coletividade, todos voltaram a fazer aquele olhar de peixe-morto que estampamos no elevador ou no ônibus lotado para nos convencer da invisibilidade dos outros.
No táxi, rumo ao esperado reencontro com minha filha, ainda podia ouvir a doce voz do Professor Eduardo tranquilizando suas velhinhas.
"Poxa..", pensei, saudosa, "Eles nem ficaram sabendo meu nome".
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p.s: A explicação oficial, juntando informações daqui e dali como uma colcha de retalhos, foi que o aeroporto de Sp estava fechado por mau-tempo, então o Rio estava congestionado, e o avião teria que ficar sobrevoando para esperar a vez. Porém, não havia gasolina suficiente para essas voltinhas, então paramos em BH para encher o tanque. Nisso, você perde a prioridade e fica esperando duas horas sua liberação.

5 comentários:

Luis Servo disse...

Gosto muito da fluência do seu texto, e como são engraçadas as situações de tensão e desconforto quando analisadas com a cabeça fresca... Adorei, não suma do meu blog, é um prazer acompanhar o seu.

valmir disse...

Vc foi no meu blog e não comentou??? Como assim???
Sobre seu post, é verdade que somos mais 'próximos dos desconhecidos' qd estamos em situação de perigo. Vivi isso qd presenciei um assalto a ônibus certa vez. Todo mundo passou a ser 'amigo de infância' de uma hora pra outra e, qd tudo acabou, ninguém mais sabia o nome da figura ao lado. Deve ser medo de irmos pro céu a sós...
bjos e volte logo!

bizoca disse...

Oi.
Fiquei curiosa prá samer o motivo do pouso em BH, no final das contas.
Se o tempo estava bom, por que eles tiveram que parar lá?
Bom, pelo menos no fim tudo correu bem. ;o)
Beijinhos

Angélica Lopes disse...

Bem lembrado, Bizoca,
vou acrescentar...

Lá Cristina disse...

Amo a maneira que escreve.
Me divirto muito aqui no seu blog. Sabe que... me sinto até mais próxima de você!
Tô amando essa coisa de blog, agora que 'consigo' escrever e ler o que as pessoas postam.
A culpa disso é sua...

Te Adoro!

Beijitos